Se está a pensar comprar carro elétrico prepare-se para a maior aventura, sobretudo em viagens longas, com o processo de carregamento.
Apenas a Tesla, que eu saiba, tem uma rede funcional para garantir abastecimentos rápidos e fáceis, sem stress, em viagens longas em Portugal e por toda a Europa. É só chegar a um dos Superchargers que o carro indica (e prepara a bateria para o carregamento rápido), escolher no local um dos vários carregadores livres, colocar a mangueira e já está a carregar. Quando termina, carrega-se num botão, retira-se a mangueira, sabe-se quanto se pagou e segue-se viagem. Simples.
Se não comprar um Tesla a aventura vai começar:
1 - Escolher um posto de carregamento
As várias apps existentes têm mapas com os vários carregadores disponíveis nas redondezas, com os vários preços e disponibilidades mas pode chegar a um deles e estar ocupado, avariado ou até inexistente.
Como existem múltiplos operadores de geração, distribuição e gestão da energia elétrica, em Portugal, e no estrangeiro (ainda mais), nem todos têm acordos com todos e, por isso, alguns postos existem mas a nossa app não sabe que eles existem e, outros há que a nossa app pensa que existe mas, chega-se ao local, e não está lá nada. E, com o tempo a passar, seguimos para a próxima opção. Viva o stress da procura dos carregadores.
2 - App ou cartão
Quando se chega ao pé do carregador supostamente disponível, pode ativar o carregamento na app, se conseguir perceber qual o número desse carregador e se a app tiver rede e estiver a funcionar bem. Ou, então, encosta-se um cartão especial de carregamento (dos vários existentes, Miio, EDP, Galp eletric, Chargemap, etc...). Nos postos mais modernos também se pode usar um normal cartão de crédito/débito.
Nalguns casos a app não consegue ativar o carregamento e tem que recorrer ao cartão. Nesta luta, já passaram vários minutos. Depois coloca-se a mangueira e segue para a 2ª parte da aventura.
3 - Posto avariado
Algumas vezes o posto diz que o carregamento vai iniciar mas... por alguma razão de comunicação ou validação de dados, o carregamento não se inicia. E esperamos mais alguns minutos. Trocamos de app ou de cartão e o problema persiste. Liga-se para o número de emergência afixado no posto. Se tivermos sorte alguém atende (na língua local do país onde estamos) e diz que vai fazer um reset ao carregador. Esperamos mais alguns minutos e, se tivermos sorte lá começa o carregamento.
Nestas voltas e reviravoltas já passaram muitos minutos, por vazes muito mais tempo do que o tempo de carregamento propriamente dito.
4 - Interrupções de carregamento
Já o carregamento vai a meio e... pummm! termina sem se perceber porquê. E lá temos que repetir tudo de novo.
Nestas voltas e voltas podemos andar mais de meia hora até conseguirmos começar a carregar. É deveras irritante.
5 - Conforto de carregamento
Muitos carregadores elétricos por esse país estão em locais isolados nas estações de serviço, à chuva, ao vento e ao sol, sem iluminação noturna, como que a dizer ao condutor: "Estás a ver? Escolheste um elétrico, és um marginal, agora vais sofrer! A culpa é tua. Sabes que existem carros normais a gasolina e híbridos não sabes?"
6 - Fatura
Agora vem a parte mais dolorosa. O valor que estava anunciado na app afinal ainda leva umas taxas diversas e, em vez de 50 cêntimos por KWh, vais pagar 80 ou mais. Ou mais grave, nalguns casos, nem sabemos quanto custou o carregamento. No caso do cartão Galp Eletric (que agora já tem uma app manhosa) só sabemos o valor do carregamento passadas algumas semanas quando chega a fatura por email. Inacreditável!
Por exemplo, o posto da Ionity da estação de serviço de Estremoz da A6, com a app MIIO, cobrou-me ontem mais de 1€ pelo KWh. O equivalente a pagar 3€ por litro de gasolina se fosse um automóvel de combustão típico que consuma 5l aos 100km.
Enquanto o posto da Tesla de Montemor me cobrou 0,28€ por KWh, quase 4 vezes menos, o equivalente a pagar a gasolina a 0,8€ por litro ou seja, a ter um consumo de aprox 2 litros aos 100Km.
7 - Saúde da bateria
Enquanto num Tesla a bateria é preparada antecipadamente para uma carregamento rápido e, no final, é calibrada, nas outras marcas e postos é dar-lhe com força com 400KW até aos 100% e, no futuro, logo se vê o resultado.
8 - Marketing
Ah! mas agora algumas apps também têm a opção de Autocharge que permite chegar e carregar logo, pois o posto de carregamento reconhece o automóvel e os dados de pagamento. Sim mas... tem que pagar uma mensalidade para ter esta funcionalidade ativa. Mais um custo. Dizem que dá descontos mas é, certamente, mais uma aventura.
Abundam campanhas diversas de descontos em vários operadores da rede de mobilidade elétrica mas a experiência de utilização é que conta. Em viagens longas o mais importante é a facilidade e rapidez de carregamento e, o mais provável é ser apanhado numa situação em que a sua rede preferencial que dá descontos não é a que está mais acessível e lá vai ter que pagar 4 vezes mais pelo abastecimento, queimando os descontos que teve antes.
Conclusão
O grande sucesso da Tesla não vem só da qualidade, inovação e experiência de condução dos seus automóveis. Vem também da sua rede inteligente de abastecimento. Elon Musk percebeu que tinha pela frente, como concorrente, uma rede muito bem montada de abastecimento de combustíveis e fez algo algo que mais nenhuma marca ainda fez. Uma rede eficiente de carregamentos rápidos, geograficamente bem colocados, de forma a proporcionar viagens longas por todo o mundo, sem grandes imprevistos.
As outras marcas estão refens dos operadores de energia elétrica, muitos deles, com mais interesse no lucro imediato do que na satisfação do consumidor e fidelização a longo prazo.
Como dizia um amigo meu: Há carros elétricos e há Teslas. E não é bem a mesma coisa.
Portugal foi pioneiro na rede de abastecimento elétrico com a MobiE mas, apesar de ser um monopólio até há pouco tempo, não conseguiu criar um sistema robusto, fiável e prático de usar. Felizmente com a nova lei da mobilidade elétrica, a Tesla abriu a sua rede aos veículos de outras marcas e talvez possa servir de inspiração para uma melhoria geral do processo de carregamento desses veículos.
Por mim, por agora, a minha experiência diz-me: Não compre carro elétrico, se não for Tesla.
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Ler também o meu artigo Eletricidade Refinada sobre as razões dos preços exorbitantes da eletricidade para abastecimento automóvel:
https://portugalpodeprosperar.blogspot.com/2025/07/eletricidade-refinada.html









